ÍNDICE

 

Walmir Ayala

Francisco Bittencourt 

A “INSTANT ART” DE PAIVA BRASIL

Geraldo Edson de Andrade

PAIVA BRASIL NA GALERIA BANERJ

Wilson Coutinho

ELOGIO AO SILÊNCIO

Frederico Morais

A COR NA OBRA DE PAIVA BRASIL

Reynaldo Roels

SIMPLES E DIRETO

André Seffrin

PAIVA BRASIL NO MNBA

Marcus de Lontra Costa

JOGOS DA ARTE

André Seffrin

PAIVA BRASIL: 50 ANOS DE ARTE

Guilherme Bueno

PAIVA BRASIL E O LABIRINTO DA COR

Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho

TANGENTES

Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho

PAIVA BRASIL : PERCURSO

Daniela Name

O INFINITO PARTICULAR DE UM MESTRE DA ABSTRAÇÃO

 

WALMIR AYALA

Paiva Brasil foi um dos artistas mais apreciados pelo grande crítico holandês Sandberg, quando da reunião do júri de premiação do último Salão de Verão do jornal do Brasil. Para os críticos locais foi uma surpresa verificar o grande avanço deste artista sensível e antes dado a um paisagismo de qualidade, mas convencional. Especialmente para mim que acompanho a pessoa e a obra de Paiva Brasil em sucessivos encontros em salões de arte, e onde sempre apreciava sua disciplina técnica a serviço de temas tão cômodos e sem qualquer proposta de esforço na assimilação, o novo Paiva Brasil foi motivo de alegria mesmo. A alegria de ver a sensibilidade subordinar-se, de repente, a um conceitualismo mental, de verdadeira raiz, em terreno que se supunha tão ingênuo e indefeso. A pessoa de Paiva Brasil dá esta sensação de estar pedindo licença para estar presente, no entanto, que força interior, de reservas de reflexão e de capacidade de pesquisa! Descobrimos posteriormente a vocação inequívoca de Paiva Brasil para a programação visual, por exemplo, e sua grande qualidade de gráfico. São detalhes jamais pressentíveis em sua pintura de matéria e expressionismo da fase anterior. Quando aparecem, no salão de verão antes citado, aquelas variações espaciais em torno da forma do número cinco, era em realidade um artista novo mostrando o que guardava no mais fundo de sua modéstia e de sua contida capacidade. Por que o número cinco, esta obsessão de Paiva Brasil? Talvez por ser um número cuja forma reflete bem a trilha expressiva do nosso barroco, talvez por ser um número que integra a reta e o círculo inacabado (mas potencial), possibilitando assim um sem número de composições capazes de formular esta verdadeira bachiana visual. Uma forma que consente a repetição sem monotonia. Talvez um apelo interior, misterioso, uma relação da infância com o número escolhido como módulo. A verdade é que Paiva Brasil, abstratizando um número, no caso o número cinco, construiu a riqueza visual que se pode ver nesta exposição... O artista dedilha o velho teclado da invenção do espaço negativo, move seu símbolo gráfico com precisão matemática, lógica esquemática, espírito de rigoroso construtivismo, esfuma a cor básica, deixando os fundos chapados e amortecidos de um velado opaco, cria uma sensação nítida de perspectiva infinita de cosmos habitável, de abertura espacial. Seu número é um satélite suspenso e organizado dentro de uma harmonia universal que ele sintetiza no limite ilusório de uma tela. Sem grandes violentações do suporte convencional, Paiva Brasil elimina sutilmente o conceito do suporte. A tela inteira, sua dimensão real, é um todo plástico palpitante e uno, uma realidade visual na qual o gráfico e a pintura se equilibram para a consumação de um momento de poética matemática. Saudamos um novo pintor, um artista que consentiu em sair de sua sombra protetora e fecunda, para lançar, como pássaros, seu geometrismo pleno de sugestões e iluminado de uma positiva alegria.”

Catálogo da Exposição no Museu Nacional De Belas Artes, Rio de Janeiro, 1974

 

FRANCISCO BITTENCOURT
A “INSTANT ART” DE PAIVA BRASIL

“No princípio era o número.‘Deus jubila-se com o número ímpar’, disse Virgílio. Da antiguidade aos nossos dias tenta-se decifrar esse enigma que é o ímpar, quantidade absoluta. As religiões orientais e ocidentais vivem às voltas com os números. O ocultismo criou a numerologia para estudar através dela o destino do homem. Os poetas, de Virgílio a Garcia Lorca, sempre sentiram fascinação muito grande pelos números. Por que não os artistas plásticos, já que além de possuir forte carga significante, o número é uma forma essencialmente plástica e gráfica? Robert Indiana é o exemplo internacional moderno de maior sucesso do emprego do algarismo nas artes visuais. Aqui, Paiva Brasil dá uma contribuição que me parece cada vez mais dinâmica à arte nacional com seu trabalho com números.

Com estudos básicos de desenho no antigo Liceu de Artes e Ofícios do Rio, de desenho estrutural e composição no MAM da mesma cidade, com Santa Rosa, e de pintura com Sanson Flexor, este arista passou muito tempo criando uma pintura bastante convencional, centrada na paisagem, em que não transparecia qualquer tipo de inquietação ou desejo de mudança. Na verdade Paiva Brasil protegia sua insegurança por trás das fachadas das igrejas que pintava. A técnica era boa, há um público certo para esse tipo de pintura e ninguém iria questionar um trabalho que apenas era feito para ser mostrado em pequenas galerias, para círculos restritos. Paiva Brasil, porém, não se sentia satisfeito com o que estava fazendo. Depois de anos de indecisão, e com uma coragem que só merece aplausos, o artista deu o passo e atravessou a linha que separa o conformismo da experimentação. Com isso ele sabia que, de vontade própria, estava se atirando às ferozes iniciava uma trajetória por cominhos arriscados e desconhecidos, que teria de decifrar sozinho.

O processo de tomada de consciência deve ter sido longo e doloroso. De caráter modesto, e afável, Paiva Brasil preferiria, que sabe, viver num mundo onde a arte não tivesse de ser perigosa, nem desafiante, ambígua ou questionadora de suas próprias estruturas. A lucidez deve tê-lo perseguido como uma chama, até queima-lo. Quando aceitou finalmente seu destino de artista contemporâneo, na virada desta década, Paiva Brasil sabia que a partir de então não poderia procurar refúgio nos esquemas bem comportados da pintura tradicional e satisfeita consigo mesma.
Suas primeiras experiências tendo por base o número foram feitas sobre tela, com pintura de spray. Era um trabalho muito limpo e organizado, de severa construção gráfica, com planos separados pela disposição da cor em várias gradações. O resultado ainda era frio, mas já representava algo de totalmente novo na carreira do artista no seu enfoque de extrema contemporaneidade, na tentativa de transfigurar não a realidade óbvia, mas de colocar dentro da arte um problema mental específico e singular – o do número como elemento significativo num contexto pictórico.

Aos poucos, a estrutura rígida foi se afrouxando, a aspiração construtiva devidamente dissecada e assimilada passou a fazer natural da corrente sanguínea do processo criador. No espaço de dois ou três anos o artista não só cominou completamente seu “concetto” de números como realidade pictórica, mas também experimentou com grande desenvoltura no campo da escultura fazendo objetos com números. Foi nesse período que passou a mostrar seus trabalhos em salões, quando ganhou prêmios na III Mostra de Artes Visuais do Estado do Rio de Janeiro, (1974), no Salão de Artes Visuais de Universidade Federal do Rio Grande do Sul, (1975), e no Salão Nacional de Arte Moderna, (1975). A segurança de manipulação e o gosto da liberdade deram a Paiva Brasil a capacidade de iniciativa e a vontade de ousar. Ele quis ir sempre mais longe, se aprofundar cada vez mais nos problemas que se havia proposto ao dar o salto. Começou então a desenhar, voltando assim à raiz do seu trabalho.
Tendo-se iniciado na sua nova fase com uma técnica mais mecânica de spray, e passando pelo normógrafo, chegou ao uso do carimbo, que agora tanto usa na “pintura” como no “desenho”. (Com quadros carimbados de cinco tirou este ano o prêmio de Viagem ao País do Salão de Arte Moderna.). Da apresentação impessoal, programada e balanceada, atingiu um ritmo de atropelamento. Do número frio, pintado para conseguir efeitos de graduações de tonalidades, chegou à criação de uma quase poética numérica, com algarismos antropofágicos, uns comendo os outros. Do sinal chegou ao símbolo, num processo brilhante de libertação da prisão técnica anterior.

A arte, hoje, é um grande debate sobre o comportamento do homem diante da vida, a desforra do indivíduo contra a massificação. Cada artista atinge o estágio da contemporaneidade quando se apresenta livre da opressão tecnicista. Paiva Brasil conseguiu esse feito. Seus instrumentos de trabalho são apenas meios, e agora já não lhe importa mais se está ‘pintando’, ‘desenhando’, carimbando suportes ou simplesmente criando suas constelações de cinco num humilde caderno escolar”.

Catálogo da Exposição no Museu Nacional de Belas Artes – RJ - 1976

 

GERALDO EDSON DE ANDRADE
PAIVA BRASIL NA GALERIA BANERJ

A pintura de Paiva Brasil tomou novo e decisivo rumo a partir de 1972. Antes figurativa, fincada num expressionismo colorístico com o qual procurava aglutinar habilmente impressões de três elementos essenciais da paisagem brasileira: casario colonial, igrejas barrocas e natureza, numa discussão em torno da própria pintura, nos quais sobressaia uma força telúrica de motivos que lhes eram afins. Tendência, portanto, de evidenciar uma temática vivencial de seus anos de adolescência, em Campos, cidade onde nasceu e se criou, pintura que posteriormente, ele reformularia, motivado por sua experiência como programador visual, atividade profissional que desenvolvia paralela à pintura. Os cinco, que assumem o primeiro plano de seu trabalho de maneira obsedante no final dos anos sessenta e decorrer dos anos setenta, seriam, assim, um prolongamento do seu trabalho gráfico. Com eles, Paiva Brasil chegou, inclusive, a ensaiar positivas tentativas escultóricas com objetos de madeira com lúdicas intenções, porquanto solicitava a participação do público para suas amplas possibilidades formais. Artista metódico, consciente do seu ofício, ele pesquisou muito e intensamente antes de mostrar ao público suas primeiras pinturas em torno de uma numerologia exclusiva, centrada no número cinco, agigantando, tomando toda a dimensão da tela, sobre fundo chapado, a lembrar, como muito bem ele acrescentou, a linguagem do outdoor, sem contudo perder a caracterização de pintura, mesmo quando passou do número cinco isolado, a forma absoluta, para a multiplicação do carimbo. O conseqüente desdobramento dessa temática está nessa série denominada pelo artista de “Coletura”, cujos primeiros trabalhos foram vistos numa individual realizada na Petite Galerie, em 1978, logo após ter conquistado o Prêmio de Viagem ao Exterior no 1º Salão Nacional de Artes Plásticas. “Coletura”, termo empregado entre gráficos, significa uma prova de máquina fora de registro, aquela que ainda não está em condições para impressão. Baseado nesse conceito essencialmente gráfico, Paiva Brasil concentrou o enfoque do seu trabalho, onde leva mais adiante as pesquisas iniciadas com o carimbo, justapondo esse elemento ao processo serigráfico impresso diretamente na tela e à pintura propriamente dita. Resulta dessa junção de variadas técnicas uma escrita propositadamente ininteligível, a “Coletura”, que dá margem ao artista realizar uma pintura de poética abstração em torno de um tema que se desdobra em veladas matizes coloridas. Dentro dessa linguagem, ao mesmo tempo gráfica e pictórica, porque uma complementa a outra nas suas composições abstratizantes, uma obra sólida de um pintor em plena maturidade.

 

Apresentação da exposição na Galeria Banerj (verso do cartaz) - 1982

 

WILSON COUTINHO
ELOGIO AO SILÊNCIO

Na Galeria Bonino o campista Paiva Brasil apresenta quinze telas, e nelas há toda uma lógica construtiva. É uma mostra elegante pela ordenação das obras...e cuja sobriedade não elimina a intensidade lúdica das formas – algumas sugerindo ou mostrando em letras, como o A que abre a sua mostra.

É verdade que a obra de Paiva contém um forte fascínio por índices que ele transforma em elementos da sua obra. Muito tempo, Paiva Brasil ocupou-se com o número 5, utilizando-o como elemento formal e poético da sua obra.

Embora possa haver sugestão das letras neste atual trabalho de Paiva Brasil, ele se apresenta diante de uma clara objetividade. O que pesa agora e, com rigor impecável, é o elemento colorido que torna sua mostra algo feliz de se olhar, de percorrer com os olhos as suas tranças de cor, que o pintor consegue obter com sua pintura.

Sua obra deve ser vista, evidentemente, como formadora de estruturas. Elas não necessitam de metáforas, nem de elementos metafóricos do mundo exterior. Com a mostração de estruturas, Paiva Brasil organiza a cor, dentro de uma relação albersiana. São jogos de cores semelhantes, próximas, que geram um belo jogo ótico, sem exagero.

É uma obra, neste sentido, feita para a pacificação do olhar. Num quadro, unem-se o rosa, o vermelho, cor de vinho. Em um outro, a cor de tijolo, entrelaça-se o vermelho e um vermelho mais escuro. Noutro são tonalidades do azul que servem para elaborar o seu jogo formal e lúdico. Uma exposição bela com a presença de formas abstratas, construídas, que exigem do espectador a aplicação de um só sentido: o da visão.

...São peças para serem vistas em silêncio,...serem um estímulo ao olhar silencioso.

Jornal do Brasil, 31 de julho de 1984

 

FREDERICO MORAIS
A COR NA OBRA DE PAIVA BRASIL


“Os modismos em arte não são necessariamente negativos ou ruins. As novas tendências não repercutem apenas sobre a produção dos seus filiados, elas atuam sobre o conjunto da produção artística, impondo inclusive uma releitura do que já foi feito, isto é, da história da arte. A retomada da pintura nesta década de 80, com a intensificação do gesto, da cor e da figura, está repercutindo mesmo sobre a arte de tendência construtiva. Pode parecer que não, mas mesmo um artista discreto e tímido como Paiva Brasil reflete, em sua produção atual... o impacto das novas tendências na pintura mundial. Paiva Brasil teve como professores dois mestres da pintura brasileira, Samson Flexor e Santa Rosa (com este último estudou desenho industrial e composição), mas, sobretudo nos anos 70, andou se afastando dos problemas específicos de pintura, para trilhar uma linha mais próxima do conceitual.Ou por outra, nele, o pólo formal – a lógica da composição, a estrutura baseada no encaixe, acumulação, repetição – sempre foi mais forte. A cor, elemento emocional, ficou sempre em segundo plano. Letras e números constituem, ainda, o subsolo de sua pintura, mas não se evidenciam no produto final. As letras foram geometrizadas e só um vício literário teima em localizá-las em suas límpidas estruturas, assim como o barroquismo do número cinco, com suas curvas ao mesmo tempo femininas e debochadas cedem lugar às linhas e ângulos retos. Com recuo desse elemento descritivo ou expositivo, sobra apenas a forma e, com ela, emerge a cor. Esta continua discreta, o artista buscando, em cada obra, tonalidades afins, irmãs, e não o contraste violento. Outro elemento da nova pintura, que Paiva Brasil absorve, é o grande formato. Como sua pintura é na verdade, de caráter modular, o que temos exposto, na Galeria Bonino, são como que fragmentos de uma única e grande obra. Porque, a rigor, nenhum quadro se esgota nos seus limites virtuais, ele absorve, ou pode absorver, vencidas certas dissonâncias cromáticas, o seu
vizinho. Como um dominó, pode crescer para o alto ou para baixo, para a esquerda ou para a direita, conforme as necessidades do jogo ou a sensibilidade do autor (e também do usuário).”

Jornal “O Globo” Segundo Caderno, 3 de agosto de 1984

 

REYNALDO ROELS
SIMPLES E DIRETO

Com uma carreira artística que data do início dos anos 50, Paiva Brasil guarda ainda, em seus trabalhos, um traço inconfundível daquela pureza das formas. Se o termo não tivesse conotações simplistas, a palavra elegância seria um termo adequado para caracterizar as doze pinturas que ele está expondo na GB. São módulos geométricos encaixados entre si e pintados em cores saturadas, que guardam toda a sua intensidade, mas evitam qualquer vibração excessiva que agrida o olhar. A disposição quase sempre diagonal dos módulos cria um ritmo peculiar sobre as paredes brancas, e os espaços vazios dão ar suficiente para que as peças respirem sem quebrar a relação que estabelecem entre si. “A década de 50 teve uma necessidade de beleza ordenada que até hoje me influencia”, diz Paiva Brasil. “Acho que a minha busca de elegância vem daquele tempo. Um de meus professores, Santa Rosa, pintava de terno e gravata e saía direto das aulas para os espetáculos no Municipal.” Paiva Brasil lembra que, nos anos 50, a exigência de rigor formal era tão grande que houve quem pretendesse escrever tratados definitivos sobre como deveria ser construída uma obra de arte, com cálculos precisos e que definissem, de antemão, a forma e a cor adequados. “Mas entre sacrificar o cálculo matemático e sacrificar o instinto do olho, é claro que eu sacrificava a matemática”, ele acrescenta.”Nos meus trabalhos, a cor e o ritmo garantem que a emoção não perca terreno para a geometria das formas.” Durante muito tempo, Paiva Brasil empregou números em seus trabalhos, especialmente o 5, que aparecia em quase todos eles. O número muitas vezes não passava de uma forma abstrata que se repetia, constituindo uma estrutura formal independente do significado. Paiva Brasil também fez esculturas com números, igualmente encaixados entre si, em que abolia toda a confusão visual, buscando sempre estruturar a forma com o máximo de rigor possível. Dos números, ele passou para as letras, tanto em relevo quanto em tela, módulos que o artista encaixava para melhor destruir o seu caráter literário. As pinturas atuais abandonam por completo as imagens, quer sejam números, quer sejam letras, para se fixarem apenas no essencial. Utilizando pequenos quadriláteros, Paiva Brasil limitou o seu repertório de módulos ao mínimo, fazendo surgir a variedade apenas da maneira como os elementos são combinados. Cada grupo de módulos recebe no máximo duas cores, e o artista obtém um efeito imediato e direto, sem entrelinhas ou sentidos ocultos que comprometam a clareza que procura. São propostas visuais ricas apesar de sua simplicidade, e mostram como é
possível tirar o máximo do mínimo.”

Reynaldo Roels Jr. – Jornal do Brasil, 23 de maio de 1986

 

ANDRÉ SEFFRIN
PAIVA BRASIL NO MNBA

Paiva Brasil é hoje um dos grandes nomes da pintura brasileira. Sua carreira teve início nos anos 50, e o temperamento discreto que o caracteriza acabou por distancia-lo da promoção fácil, moeda corrente da arte atual. Soube também se afastar da acomodação que uma obra bem recebida e premiada costuma determinar no espírito de todo artista. Com prêmios de Viagem ao país no Salão Nacional de Arte Moderna (1976) e Viagem ao Exterior no 1º Salão Nacional de Artes Plásticas (1978), entre outros, Paiva participou de inúmeras coletivas nacionais, como a Bienal de São Paulo, o Panorama de Arte Atual Brasileira (MAM-SP) e o Salão de Verão do Jornal do Brasil (MAM-RJ). Inaugura sua décima primeira individual. Sua trajetória, marcada por um construtivismo de primeira água, é das mais fascinantes no vasto universo das experiências que envolvem o abstracionismo geométrico no país. Paiva estudou com Santa Rosa e Samson Flexor, este, o precursor das nossas pesquisas abstratas. A partir daí, sua contribuição se destaca entre as que realmente significam num plano nacional, integrando a intensa família dos Volpi, Rubem Valentim, Milton Dacosta, Maria Leontina ou Ianelli. São os cultores da simplicidade extrema, mergulhados no íntimo do homem. A pintura de Paiva Brasil: os planos, as formas, a cor só cor, os silêncios, as vozes, a alma. Artista integral, Paiva dá ao seu tempo o testemunho e o sangue. Arte se faz com sangue, já dizia Graciliano Ramos. O Museu Nacional de Belas Artes apresenta suas novas pinturas. São 32 trabalhos recentes, módulos revestidos de tela de algodão que o próprio artista denomina “quadros-objetos”. Em texto reproduzido no catálogo, escreveu Marcus de Lontra Costa “Simples e sofisticados, sensíveis e inteligentes, as pinturas de Paiva Brasil são verdadeiros jogos da arte: jogos de ARMAR, jogos de AMAR.”

Rio de janeiro, Novembro de 1997

 

MARCUS DE LONTRA COSTA
JOGOS DA ARTE

“Alguns artistas fazem de suas trajetórias um caminho acidentado, marcado por rupturas, cortes abruptos tão a gosto do romantismo ainda vigente. Outros, preferem fazer da vida um passeio mais ameno, acumulando experiências que se refletem na evolução segura e gradual de suas obras. São, normalmente, esses artistas, os sedimentadores das conquistas da arte, os que discretamente germinam o terreno do futuro. Paiva Brasil pertence a essa estirpe. A sua trajetória artística é o reflexo de uma personalidade discreta e sensível. Consciente da atemporalidade do valor artístico, Paiva Brasil vem desenvolvendo suas pesquisas sem sobressaltos, porém com evidentes conquistas no seu repertório visual de origem geométrico-abstrata, afinado com uma vocação artística brasileira tão bem definida por Roberto Pontual como “geometria sensível”. Nesse sentido, o artista sempre buscou conciliar o rigor da pesquisa de seus métodos construtivos com uma certa dose de intuição, de inquietude, que faz uma espécie de brincadeira lúdica onde os elementos geométricos formam parte de um jogo de armar, de uma estrutura flexível cujo todo é constantemente refeito. Essa trans-forma-ação, essa possibilidade de criar, através da modulação, une-se à tentativa atual do artista de sintetizar na sua obra instrumentos de percepção pictórica diversificados que estabelecem um diálogo de grande apelo visual. Paiva Brasil extrai uma rede de significados nessa situação e faz de seu trabalho um exercício de busca de beleza e clareza visual. Simples e sofisticados, sensíveis e inteligentes, as pinturas de Paiva Brasil são verdadeiros jogos da arte: jogos de armar, jogos de amar.”

Catálogo da Exposição no museu Nacional de Belas Artes - RJ - setembro - 1997

 

ANDRÉ SEFFRIN
PAIVA BRASIL: 50 ANOS DE ARTE

No Museu de Arte Contemporânea de Niterói, a exposição A forma lúdica de Paiva Brasil, curadoria do crítico Paulo Reis, mapeia, em caráter retrospectivo, os 50 anos da atividade de um grande artista, um artista que se manteve um pouco à margem das correntes mais conhecidas da arte construtiva no Brasil, em parte oriundas dos grupos que se formaram em torno do movimento concretista e sua dissidência neoconcretista. De fato, Paiva Brasil começou a atuar na efervescência dos anos 50, contemporâneo das primeiras mostras concretistas no país, das quais, diga-se de passagem, não participou, talvez pelo temperamento algo retraído que o caracteriza. A organização da mostra é enxuta, provavelmente condicionada pelo espaço do museu que, todavia, parece manter com a obra desse artista uma insólita e curiosa identidade. Numa época em que muito do que se expõe provoca dúvida ou repulsa no espectador, vale ressaltar o entusiasmo do público com estes trabalhos que são um convite ao livre exercício de suas múltiplas possibilidades composicionais, num projeto que Frederico Morais certa vez definiu, com a clareza habitual, como “fragmentos de uma única e grande obra”. Em depoimento de 1982, Paiva Brasil rememorou seu contato inaugural com a arte, na infância: “Foi a partir de uma visita a minha madrinha, num lugar distante de Campos (Campos dos Goytacazes, onde nasceu). Nessa visita descobri a arte. Aliás, passei a me interessar por arte, conhecer o que era pintura. Ela pintava estandartes religiosos para a igreja.” Mais tarde, no Rio de Janeiro, estudou no Museu de Arte Moderna - Desenho Estrutural com Santa Rosa e Pintura com Samson Flexor, influências decisivas em sua carreira. Sobre seu convívio com Flexor, comentou, ainda naquela entrevista: “Era uma coisa apaixonante a maneira como ele trabalhava. Eu, por exemplo, na época, fui muito influenciado por ele, durante um certo tempo pesquisei dentro das teorias do Flexor. Cheguei até a mostrar trabalhos dentro de uma linha que tinha muito a ver com aquelas teorias que partiam da rede geométrica e da abstração.” Ressalte-se que as lições de Flexor e Santa Rosa são perceptíveis nos três trabalhos que abrem esta exposição: Duas figuras (1954), Ritmo (1956) e Mineral (1957). No que diz respeito a Flexor, entre outros artistas internacionais que aqui se fixaram, sua chegada ao Brasil marcou um novo tempo em nossa arte moderna, que iria se fortalecer com a criação da Bienal de São Paulo e dos primeiros museus de arte moderna, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nesse ambiente favorável, Paiva Brasil começou a desenvolver suas pesquisas de ordem geométrica. A exemplo de Antonio Maluf ou Aluísio Carvão, ele também atuou desde o início como artista gráfico e o que seria apenas um dado curricular acabou por alterar sensivelmente a rota de sua criação. A partir de meados dos anos 50, criou capas de revistas e livros (há apenas três peças desse trabalho, registro que sem dúvida merecia maior destaque na exposição) sempre sob o impacto das novas correntes da arte sem com isso perder de vista a natureza intuitiva da pesquisa. Um figurativismo de ânimo expressionista foi, no entanto, a sua pedra de toque nesses anos iniciais, quando expôs paisagens em que predominavam fachadas de igrejas imersas num cenário convulso, uma fase que, certamente por questões programáticas, não comparece nesta mostra. Frente à postura contestadora do artista nos anos 70, a crítica insistiu em considerar convencional esse seu figurativismo que a meu ver merece um estudo à parte. Mas o apelo construtivista logo preponderou, porque exatamente em 1968 Paiva Brasil começou a explorar visualmente o número cinco, no qual Walmir Ayala percebeu posteriormente uma “antipintura ao admitir o desmonte formal do signo (o cinco) através de uma atuação instantânea e aberta sobre o suporte”, assinalando ainda que “a tinta escorrida, o simulacro do pintor de paredes, o borrão, o rompimento do convencional do bom acabamento, chamaram a atenção na Bienal de São Paulo onde Paiva Brasil apresentou a obra.” O número, inicialmente pintado com rigor geométrico (séries Emblema e Esfumado, nesta última há uma acentuação dos volumes ao modo de Vicente do Rego Monteiro), aproxima-se pouco a pouco do abstracionismo, principalmente com a adoção das técnicas do carimbo e da serigrafia (séries Carimbo e Normógrafo), de 1974 a 1979. Para o artista, “a preocupação maior era com a forma, e suas possibilidades visuais, aliada ao caráter obsessivo”. Ao aderir claramente ao experimentalismo, em meados dos 70, Paiva passou a trabalhar cada vez mais com letras e números, às vezes dispostos em simetria (a lembrar a simetria das provas de impressão), outras, sobrepostos e condensados, numa sugestiva “pintura pela pintura” (série Coletura), em que certa dose de crítica ao sistema da arte (arte conceitual e adjacências) não interferiu em sua proposta primordial, ou seja, a perspectiva lúdica da forma. Daí para a série Quadro-objeto, produzida a partir dos anos 80 e dominante em sua produção atual, ou para a série Vertebrado (1990), múltiplos numerados que solicitam a participação do espectador, houve um aprimoramento de linguagem, uma depuração que resultou de pesquisas sucessivas e confluentes. Segundo Marcus de Lontra Costa, são jogos de armar e amar, um encontro nada casual de emoção e lógica. E aqui cabe um pequeno parêntesis: como Amílcar de Castro, que, por falta de recursos, não chegou a realizar suas esculturas nas proporções desejadas, Paiva Brasil não pôde dar continuidade ao seu objeto escultórico Integração (ainda o número cinco, em módulos de cedro) que tencionava produzir em escala maior e em série. Projetos malogrados num país pobre que confina a produção do artista. Por fim, um bom catálogo acompanha a exposição, projeto gráfico sóbrio e elegante, do próprio artista, embora, pela importância de sua obra, mereça uma publicação mais generosa, um livro de arte, assim como também outros partícipes dessa mesma luta, como Palatnik, Arnaldo Ferrari, Ubi Bava, Rubem Ludolf ou João José Costa.

Jornal Gazeta Mercantil - Fim de semana - 1º de outubro de 2004

 

GUILHERME BUENO

PAIVA BRASIL E O LABIRINTO DA COR

 

 

      PAIVA BRASIL DECIDIU ANCORAR SUA OBRA dos últimos trinta anos em dois elementos que fascinaram a arte do século XX: a geometria e a cor. O que o motivaria a persistir obstinado em algo que parece já ter oferecido tudo o que podia? 

        A resposta está, sem rodeios, na sua pintura: porque ainda há algo a ser explorado, há sempre um grande achado à espreita em pequenas descobertas do dia a dia do ateliê. Nisso podemos supor o que organi­za o seu jogo pictórico. Se fica patente a capacidade da geometria e da cor juntas animarem o espaço da tela de modos diferentes a cada combinação, não é menos notável ambas constituírem modelos que, por sua relativa simplicidade, são capazes de serem infinitamente rein­ventados. A forma, que por sua configuração esquemática tenderia a ser "transparente", funcionando quase como um esqueleto da com­posição, ao nascer como cor reclama uma corporeidade, manifesta na sua evolução por planos que às vezes se ajustam, outras avançam fisicamente para além do suporte.

      Outra questão a ser percebida, ainda em torno desse vínculo entre geometria e cor reside no fato de ambas afirmarem uma autonomia da forma se e somente quando constituintes daquela entidade única acima comentada. Não se trata nem de "geometria colorida", nem de "cor geometrizada". A forma obtida é simultaneamente a apropriação de um vocabulário visual e o deslocamento de seu significado ordinário. Podemos colocar isso de outra maneira: assim como antes Paiva Brasil usara o algarismo 5 como um signo capaz de evocar a história da pin­tura (o uso das letras pelos cubistas), mas também de esvair-se de seu valor numérico para tornar-se valor gráfico, algo semelhante pode ser pensado no tratamento dispensado a essa "geometria-cor" feita aqui signo primeiro.

      Nas atuais pinturas do artista vê-se como esse elo se refez. A tela se divide entre grandes campos e outros povoados por pequenas com­binações de pontos que, além da vibração a animar tais áreas, montam um verdadeiro labirinto do olhar, cuja tarefa é percorrer talvez infini­tamente aquele espaço. Há nisso uma perspicaz intuição: por um lado, alude-se a esse espaço restrito, mas infinito, que a tela, a pintura e o labirinto podem ser, capturando o espectador; por outro, a discreta e metódica segurança do pintor em saber atravessá-lo sem se perder – ou, se isto porventura acontece intencionalmente vez ou outra, de reencontrar-se.

 

Rio de Janeiro, 20 de junho de 2010

 

LUIZ CHRYSOSTOMO DE OLIVEIRA FILHO

TANGENTES

“ Um quadro abstrato não representa, mas se apresenta”
Samson Flexor, 1956


      A nova série de pinturas “Tangentes” de Paiva Brasil reafirma mais uma vez sua delicada e consistente poética. Uma sólida trajetória de 60 anos de trabalho e dedicação.  A escolha do título da exposição revela também ao público a sutileza de como este artista vivencia sua arte. O conceito de tangente pode ser apropriado de três formas distintas na matemática: diretamente da geometria euclidiana, onde a definimos como a reta que toca uma curva ou superfície sem cortá-la, compartilhando um único ponto ; da trigonometria, que estuda a relação entre os lados e os ângulos de um triângulo, sendo que a definição de tangente (de um ângulo) é expressa aqui como um número real positivo, resultante da razão entre o cateto oposto e o cateto adjacente de um dado triangulo; ou por fim da geometria cartesiana (analítica), que se utiliza de métodos e símbolos algébricos (notações e letras) para representar e resolver questões geométricas, incluindo a definição da tangente em uma equação de reta. Paiva “joga” com esses elementos, todos tão presentes no seu léxico, mas deixando sempre o observador livre para escolher que caminho seguir.

      Artista discreto e sensitivo, Paiva faz parte, por tradição e direito, de nossa primeira geração construtiva. Sem nunca ter estado vinculado formalmente a nenhum dos movimentos concretista ou neoconcretista, ele criou e vem desenvolvendo de forma independente uma linguagem abstrato-geométrica  desde meados dos anos 1950. Aluno no MAM-RJ de desenho e composição gráfica de Santa Rosa e de pintura de Samson Flexor, Paiva poderia ter-se filiado a tradição de alguns membros do Grupo Frente no Rio de Janeiro como Rubem Ludolf, João José e Décio Vieira , da mesma forma que poderia estar ao lado dos alunos paulistas de Flexor no pioneiro Atelier Abstração como Norberto Nicola e Jacques Douchez. Ele, entretanto, solitariamente, tomou um rumo distinto.

      Seu repertório concreto sempre flertou com os binômios Composição/Cor, Construção/Movimento , Lúdico/Jogo, muitas vezes alternando seu uso, em combinações aleatórias surpreendentes e inovadoras. Sua habilidade como programador visual e pintor nunca limitou seu experimento de ir além da bidimensionalidade ou de qualquer restrição ao suporte tradicional. Suas pesquisas de cor, ao mesmo tempo que conciliaram gradações ou tonalidades aproximadas, sempre estiveram associadas a “construções” do quadro, ou objetos de cor, que exigiram do artista o exercício de novas formas, entrelaçando estruturas, redefinindo os espaços do quadro, como se fossem espaços novos de cor. Em outros momentos a cor, como elemento subsidiário, era o “suporte” para esculturas móveis, como na série “Vertebrados”, onde o artista deu asas a suas experiências escultóricas, sempre na interação com o expectador, matéria tão cara à nossa história da arte.

      Paiva também desbravou o uso de símbolos, em sua forma “bruta” ou na “construção” de novos significados, às vezes como um novo vocabulário. A apropriação do número 5, obra que o marca definitivamente a partir do final dos anos 60 e percorre toda sua trajetória, exemplifica bem sua disposição para essa invenção e ousadia poética. Explorou nas séries ”Emblemas” e “ Esfumados”, a curva e a reta, mas também a opacidade e os volumes com cor, muitas vezes com um grafismo sofisticado e vibrante. Saiu do plano e criou um elemento novo tridimensional que abandona a ideia de um simples algarismo para virar múltiplos algoritmos da forma (referência ao objeto escultórico “Integração”). Através da série “Carimbos” incorporou a essa mesma invenção a repetição contínua, obsessiva, mas ao mesmo tempo lúdica. Reconfigurou letras e palavras nos anos 1980, e mais uma vez, com as cores e os planos de cor, redefiniu o próprio sentido destas nas chamadas “Coleturas”. Paiva faz poesia visual com números e letras, sem que seja necessário titular a priori versões de poemas concretos. É antes pintura. E pura abstração.

     A nova série “Tangentes”, ora aqui exposta na Galeria Mercedes Viegas, mescla uma certa síntese desse percurso. Vemos ali a curvatura do 5, o encontro da tangente imaginária? Ou brincamos como um jogo de peças que tenta o encaixe perfeito sem saber exatamente qual deve ser a forma final? A exploração dos espaços vazios , como uma ausência de cor , é parte do equilíbrio e da composição das cores? Paiva dialoga aqui com o espaço, montando e desmontando, horizontalizando ou verticalizando, sem entretanto que saibamos onde tudo começa . Será a forma que define e orienta ou as cores que se encontram/dissipam? Com refinada sutileza podemos girar seus “objetos” de cor e redescobrir novas opções e novos sentidos. Por que não novas tangentes? Por onde devemos guiar nosso olhar? É isso que o artista exige. Anuncia um caminho, mas deixa o espectador, como sempre, fluir e se posicionar.

Rio de Janeiro, 10 de março de 2015

 

LUIZ CHRYSOSTOMO DE OLIVEIRA FILHO

PAIVA BRASIL : PERCURSO

 

"(...)pense não na forma, mas no ato de formar" 
Paul Klee – Pedagogical Sketchbook

 

      A principal tarefa dessa exposição não é apenas dividir com o público as belas estruturas e composições de cor de Paiva Brasil, ao longo dos últimos 65 anos. Além do tributo ao seu pensamento estético, faz-se necessário ressaltar sua contribuição como artista ímpar, independente, e que ao longo de toda trajetória ergueu uma obra inovadora, instaurando um construtivismo lúdico, flertando com a emoção e os enigmas do olhar.

    Discreto, nascido em Campos dos Goytacazes, Estado do Rio de Janeiro, Paiva faz parte, por tradição e direito, de nossa primeira geração construtivista. Ainda que não estando vinculado formalmente a nenhum dos movimentos abstrato-geométricos, poderia ter-se filiado ao Grupo Frente na tradição de Rubem Ludolf, João José ou Décio Vieria. Entre o final dos anos 1940 e início dos anos 1950 estudou no Liceu de Artes e Ofícios. Posteriormente, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, dedicou-se ao desenho e a composição gráfica com Santa Rosa e pintura com Samson Flexor, pioneiro do Atelier Abstração em São Paulo, primeiro grupo de arte geométrica do país. 

     Participante de Bienais e diversos Salões Nacionais, dentre as quais se destaca o III Salão Nacional de Arte Moderna (salão Branco e Preto), premiado com viagem ao exterior no I Salão Nacional de Artes Plásticas (Rio de Janeiro), Paiva desenvolveu um léxico próprio e consistente. Sem ser adepto de um evolucionismo fácil, construiu um caminho onde sugere possibilidades, com elegância transmutou a forma, elegeu cores. 

     Em sua "Homage" ao 5 , série que se inicia no fim dos anos 1960 com Emblema (1968), presente nesta exposição, Paiva reinventa o número e constrói sua poética matemática, como bem notou Walmir Ayala. Ainda que o uso dos algarismos esteja presente desde os primórdios das vanguardas europeias cubistas e dadaístas, o artista segue caminho próprio redefinindo uma nova linguagem plástica. O que lhe atrai é a exata medida do manejo gráfico, deslocando reta, semicírculos e círculos inacabados em construções no espaço. Pinta, desenha com normógrafos, carimba e esculpe em madeira. Sutilmente recodifica e ressignifica o 5, inaugura um elemento externo de representação. O 5 não é mais o 5. Brinca com a tonalidade, esfuma, repete sem monotonia, integra. Não é mais algarismo, mas uma elaboração geométrica. Sua apropriação não provém da matriz da arte conceitual dos anos 1970 ou do Pop de Robert Indiana. É o 5 de Paiva. 

    A cor explode a partir do final dos anos 1970 e início dos 1980. Ela não mais o abandona e amplia seu universo. Nunca será ambivalente, mas sempre reflexiva. Como Albers pontuou no clássico "Interaction of Colors" a cor é o meio mais relativo e instável na arte. A mesma cor evoca inúmeras leituras, bastando para tal sua justaposição em relação às demais. Não existe a cor absoluta , mas a cor em relação a outra cor. Em seus "exercícios" albersianos, Paiva "escreve a cor" com o uso de um símbolo gráfico, a letra. Inicialmente através de acumulações superpostas ("Coleturas"), definindo planos de cor que se interagem, depois inova com o uso construtivo da letra A. Como antes, introduz uma nova poética , cria ritmos e labirintos para o olhar, trança as cores em sutis encontros que extrapolam a expectativa comum. Sugere e pinta códigos de cor, brinca e desafia a visão do espectador. São os jogos da cor, os jogos da Arte. 

    Em seu percurso Paiva nunca deixou de surpreender. Ao lado de sua artesania no atelier, onde reconfigura telas e suportes, exigência própria que não admite terceirizar, criou novas possibilidades para o emprego da cor e da forma. Descortinar o verso da obra nos remete a uma outra dimensão histórica do fazer. Assim como nos "Vertebrados", seus articulados "Bichos da Cor", elaborou em madeira estruturas e encaixes móveis onde o espectador precisa trabalhar. Agora ele não mais se exercita com os olhos, mas com as próprias mãos. Nos Quadros-Objetos, produto dessa longa vivência, se desobriga em escolher como as obras devem estar expostas. Vaza a tela e deixa o espaço ser parte de sua solução pictórica, como se ali estivesse um respiro necessário para sua própria sobrevivência. Na série Tangentes, objeto de sua última exposição individual, alcança uma síntese onde muitos dos elementos aqui descritos se juntam de forma harmônica e delicada. 

    A presente e oportuna exposição no Paço Imperial celebra a inventividade e o rigor desse artista sensível. Permite inscrever Paiva não somente no panteão de nossos coloristas, mas também na tradição de um construtivismo autóctone e vibrante. 

Rio de Janeiro, 16 de julho de 2019

 

DANIELA NAME

O INFINITO PARTICULAR DE UM MESTRE DA ABSTRAÇÃO

 

Aos 89 anos, Paiva Brasil repassa 70 de seu “Percurso” em uma exposição panorâmica com curadoria de Luiz Chrysóstomo de Oliveira Filho, em cartaz até 28 de outubro no Paço Imperial. A mostra mergulha na obsessão do artista pelo número 5, aquele que concilia as retas e as curvas, as linhas e os espaços. “É o meu infinito”, sintetiza o artista.

 

A seleção de trabalhos enfatiza ainda a versatilidade de Paiva no manejo de técnicas e sua originalidade na abordagem da geometria e da arte abstrata. O menino que fazia os próprios brinquedos com barro catado na estrada um dia cresceu e estudou no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio com o pintor Samson Flexor e o cenógrafo Santa Rosa, mas nunca perdeu a curiosidade e certo espírito empreendedor.

 

Como funcionário público, organizou o histórico Salão de Natureza Morta do SAPS (Serviço de Alimentação da Previdência Social), órgão criado pelo médico e geógrafo pernambucano Josué de Castro que sediou o primeiro restaurante popular do país. Já no Ministério da Educação, em plena ditadura militar, levou obras de artistas como Djanira, Inimá de Paiva e Di Cavalcanti para cidades do interior do Rio ao organizar as Exposições Itinerantes: “Não deixou de ser uma forma de resistir”, conclui.

 

Você nasceu em Campos dos Goytacazes, Norte Fluminense. Quando era criança, brincava nos canaviais do pai e nas olarias da região. Quem era esse menino, e o que herdou dessa infância?

 

Alguém que gostava de circo e que aproveitava o barro e a tradição das olarias locais para tentar produzir seus próprios brinquedos. Eu pegava barro da estrada mesmo, e criava meus cavalos, meus bonecos. Eu também adorava ver os santos nas igrejas e passei a olhar para aquelas imagens e tentar criar coisas parecidas. Meu pai, Manuel, tinha canaviais, mas ao mesmo tempo mantinha um café na cidade e também era barbeiro. Acho que herdei essa curiosidade.

 

Como se deu a vinda para o Rio e sua iniciação artística?

 

Fomos morar em Vila Isabel, depois fomos para o Leme. Entrei para o Liceu de Artes e Ofícios. Naquela época, o processo de formação de qualquer artista começava com o desenho. Precisei aprender a desenhar e ser testado como desenhista antes de sequer tentar trabalhar com pintura.

 

Esses anos de Liceu foram importantíssimos, pois graças a eles consegui um emprego público como assistente de desenhista no Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), criado pelo (geógrafo, médico e nutricionista) Josué de Castro, um momento fundamental na minha história.

 

No SAPS eu passei também a organizar o Salão Anual de Natureza Morta da instituição. Volpi, Bonadei, Djanira, Manabu Mabe, Lasar Segall e muitos outros artistas importantes da época participaram do Salão. Mais tarde, rompi com a tradição acadêmica do Liceu e fui estudar no MAM com Santa Rosa e com Samson Flexor, grandes professores.

 

Você estudou no Museu de Arte Moderna um pouco depois do aparecimento das vanguardas construtivas brasileiras, mas teve um caminho paralelo. Como avalia esse momento da arte brasileira hoje?

 

Apesar de nunca ter feito parte de nenhum movimento dos anos 1950, e nem dos grupos Ruptura (que lançou o Manifesto Concreto, em 1952, em São Paulo) ou Frente (muitos de seus integrantes assinaram o Manifesto Neoconcreto, em 1959), sempre fui muito informado do que estava acontecendo no Brasil e no mundo.

 

Tinha interesse nas obras do período, mas achava os grupos pretensiosos. E as questões apresentadas pelo Ruptura não me espelhavam, porque vinham de uma matemática seca, sem misturas. A matemática que existe no meu trabalho é música, vem da composição sensível de cores e formas. Minha pintura é extremamente musical.

 

No fim da década de 1960, já fora do SAPS, você coordenou um momento muito importante e pouco estudado: as Exposições Itinerantes do Ministério da Educação.

 

Eu e meus colegas reuníamos a obra de artistas como Ivan Serpa e Di Cavalcanti, botávamos dentro de um carro, precisamente uma Brasília, e pegávamos a estrada. Lembro que uma (pintura) “Santana” da Djanira que foi no banco de trás, e eu passei a viagem inteira olhando para trás. Não existiam leis de incentivo e já estávamos na ditadura. De certa forma, fizemos resistência àqueles tempos difíceis.

 

A descoberta do número 5 como possibilidade artística se dá nesse momento?

 

Fiz a capa de catálogo para a quinta exposição itinerante e tinha que pensar no número 5 graficamente. Veio daí a descoberta do 5 como minha obsessão. Através da pesquisa das curvas e retas do número, fui recuperando esses materiais de repartição e os experimentando de outras formas. Com o 5 pesquiso a linha e o espaço, o cheio e o vazio. O 5 é minha forma de infinito.

 

Este “Percurso” em cartaz no Paço te deu vontade de fazer algo novo?

 

Já estou fazendo! Ainda não posso dizer exatamente o que são os novos trabalhos, porque estão nascendo. Mas tenho inventado objetos que são brinquedos. Depois de passar a carreira a limpo, acho que me deu vontade de brincar.

 

Jornal O Globo – Segundo Caderno – 4 de setembro de 2019

 © 2020 by Genilson Soares

     Fotografias: Jaime Acioli

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